João Palma: as imagens do último show

Disciplinado, João Palma monta a bateria para o espetáculo. Noite, 11 de março de 2016. Peça por peça, com calma, prepara o instrumento. Chego para bater um papo, ele logo interrompe. Precisa estar atento para não esquecer nenhum detalhe. Pergunto se posso filmar, ele permite.

– Você sabe, é história…

João sorri e continua a primeira parte de seu trabalho. Bate na caixa e no prato, olha para a câmera e pisca o olho em sinal de positivo. Está tudo pronto. O show pode começar.

Hoje sabemos. Foi o seu último.

No dia 9 de maio, a música mundial lamentou sua perda. João Palma foi encontrado morto em seu apartamento, no Centro do Rio. Ao que tudo indica, foi surpreendido por um ataque cardíaco enquanto dormia. Tinha 75 anos de idade.

João Palma no Bottle's Bar, em 25/12/2015 Foto: Bernardo Costa / coisasdamusica

João Palma no Bottle’s Bar, em 25/12/2015  Foto: Bernardo Costa / coisasdamusica

Para João Ferreira da Silva Palma, o ciclo se fecha: a música começa e termina no Beco das Garrafas. Foi lá onde ele contou ter começado a carreira, no início dos anos 60, ao lado do baixista Tião Neto e do pianista Johnny Alf.

– Ele perguntou se eu sabia tocar de vassourinha… – lembrou Palma durante uma conversa.

A vassourinha… Foi o que o fascinou sobre o balcão da loja Guitarra de Prata, onde sua mãe, a pianista Nadir Guimarães, comparava partituras. João Palma, então com 8 anos, perguntou interessado:

– Como é que toca isso?

Depois de uma demonstração do vendedor, virou-se para a mãe e disse:

– Eu quero essa vassourinha e essa baqueta!

Em casa, praticava na pele de um surdo: “passi pata passi pata passi pata…”

João Palma, Ithamara Koorax e Alfredo Cardim no Beco das Garrafas, em 08/01/2016 Foto: Bernardo Costa / coisasdamusica

No Beco: João Palma, Ithamara Koorax e Alfredo Cardim  Foto: Bernardo Costa / coisasdamusica

Foi também no Beco a última temporada de shows, noticiados e documentados pelo portal Coisas da Música. Seu mundo já tinha dado a grande volta, e sua habilidade na vassourinha havia conquistado grande prestígio internacional. O suingue avassalador do samba de bossa nova. Sutil, preciso, elegante, criativo.

Uma vez, comentei após o show:

– Você criou vários climas na bateria…

João fez a mesma expressão que aparece no vídeo acima. Balançou a cabeça lentamente, afirmativo, e piscou o olho com jeito esperto.

Nesse retorno ao Beco, o conjunto fora formado com Ithamara Koorax (voz), Alfredo Cardim (piano) e Geferson Horta (contrabaixo). Os shows aconteceram em dezembro de 2015, e em janeiro e março de 2016, com o repertório das gravações de Palma nos discos de Tom Jobim, Sérgio Mendes, Frank Sinatra, Stanley Turrentine, Walter Wanderly, Ithamara Koorax e Astrud Gilberto, entre outros.

João Palma era o grande homenageado. E estava satisfeito:

– Esse reconhecimento, esse carinho, não tem preço. Eu estou muito feliz. Muito obrigado – disse o baterista, no microfone à frente do palco, num dos shows da temporada de dezembro.

Foi a sua despedida, com muita música.

João Palma com os filhos Duda (à esq.) e Tiago, em nov. de 2013 Foto: Álbum de família

João Palma com os filhos Duda (à esq.) e Tiago, em nov. de 2013 Foto: Álbum de família

João Palma avô

Quem viu e ouviu João Palma tocar, quem conhece os discos, sabe que existe um legado, sabe que “sua bossa não tem fim”, como escreveram os filhos Duda, Tiago e Gabriel na coroa de flores.

Duda e Gabriel serão pai em breve de duas meninas. Por mais dois motivos, Palma estava satisfeito, e chegou a arriscar um nome para uma das netas: Emily. Duda achou “americanizado”.  Será Maria Rita.

Vida que segue.

 

Créditos:

Foto de capa: Bernardo Costa / portal Coisas da Música

 

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