Celso Brando: um violão gravado na História

O episódio aconteceu numa noite em que Celso Brando foi jantar na casa de um primo. Lá pelas tantas, o parente pôs um disco para tocar. Brando, 76 anos, reagiu num sobressalto:

– Meu Deus, eu estou reconhecendo este violão… Sou eu!

Era como se o passar dos anos e a opção pela carreira de arquiteto e fotógrafo colocassem num canto escuro da memória a sua atividade como violonista e guitarrista nos tempos áureos da bossa nova.

Mas estamos aqui para iluminá-la. A começar pelo disco sacado pelo primo, de Roberto Menescal e seu Conjunto, gravado em 1964 pelo selo Imperial.

São do mesmo ano as gravações dos LPs “Vagamente” e “Embalo”, as estreias fonográficas da cantora Wanda Sá e do pianista Tenório Jr. Encerra-se aí a discografia de Celso Brando, uma pequena reunião de clássicos da bossa nova.

– De fato posso dizer que ajudei a dar um impulso a esse estilo de música – diz Brando em entrevista ao portal Coisas da Música, em seu apartamento, na Tijuca, cuja sala de estar fora preparada acusticamente para a audição de LPs, CDs e fitas cassetes de seu acervo.

– Cadê o chiado? Cadê o chiado? – provoca Brando ao colocar um LP do guitarrista Wes Montgomery no toca-discos.

– Uau… Impecável!

Celso Brando na sala de casa: alto falante trazido de um estúdio de Londres Foto: Bernardo Costa/coisasdamusica

‘Violão gostosinho’

Além de Roberto Menescal, Wanda Sá e Tenório Jr., estavam ao lado de Celso Brando, nos estúdios, a nata dos instrumentistas: o pianista e arranjador Eumir Deodato; os contrabaixistas Sérgio Barroso, Octávio Bailly Jr., Manoel Gusmão e José Antônio Alves; os bateristas João Palma, Edison Machado, Dom Um Romão, Milton Banana e Ronnie Mesquita; o pianista Luiz Carlos Vinhas, o vibrafonista Ugo Marotta; o violonista Neco e o percussionista Rubens Bassini.

Nos metais: os trombonistas Edson Maciel e Raul de Souza; os saxofonistas Paulo Moura, J. T. Meirelles e Hector Costita; e os trompetistas Pedro Paulo e Maurílio. Na flauta, Henri Ackselrud.

Apesar de ter sido apelidado entre os músicos de “o Barney Kessel brasileiro”, Celso Brando conta que não se sentia à vontade tocando com “esses mestres”.

– Anos depois, o Marcos Szpilman me convidou para ser o guitarrista da Rio Jazz Orchestra, mas aleguei que não sabia ler música. Acho que eu não me sentia à altura para tocar numa orquestra, e já estava envolvido com a arquitetura.

O convite é mais uma prova de que os colegas gostavam de seu estilo. Wanda Sá, ao revê-lo, perguntou:

– Como vai aquele violão gostosinho?

É com satisfação que Celso Brando lembra o encontro, há cerca de dois anos.

– Ela me pediu que tocasse “Clouds” (Maurício Einhorn e Durval Ferreira), e eu pude lembrar a harmonia!

Fotografias

Em dado momento da entrevista, Celso Brando pede para mostrar algumas fotos (vídeo acima). Estão lá os registros dos conjuntos de baile, no início dos anos 1960. Eumir Deodato toca um acordeon. Tenório Jr., morto pela ditadura militar argentina, em 1976, após ser confundido com um militante comunista, aparece numa caricatura feita por Sérgio Barroso. Eumir e Tenório foram os principais companheiros de Brando naquela época.

– Nós tocávamos em festinhas, tardes dançantes, clubes… Esta foto aqui, com o Eumir Deodato segurando um acordeon, foi feita no aniversário de 15 anos da menina que está na foto. Nadja é o nome dela, lembro até hoje – mostra Brando.

Nos encartes dos CDs de Ithamara Koorax, produzidos por Arnaldo DeSouteiro, também estão os cliques de Celso Brando, em que a cantora aparece ao lado de João Palma, Sérgio Barroso, José Roberto Bertrami, Ron Carter e Gonzalo Rubalcaba.

Tenório Jr., Celso Brando e Domingos Sodré em caricatura feita por Sérgio Barroso Foto: Reprodução

Tenório Jr., Celso Brando e Domingos Sodré em caricatura feita por Sérgio Barroso Foto: Reprodução

Tenório Jr.

Dos bailes, os colegas passaram para os estúdios de gravação e o levaram junto. Tenório Jr. foi um deles. Não abria mão do violão de Celso Brando.

– É até chato dizer isto, mas ele me admirava muito como músico – diz Brando, sempre modesto ao referir-se à sua atuação como instrumentista.

Para Celso Brando, o que aconteceu com Tenório foi esclarecido:

– Eu só tenho que encontrar a revista em que o agente argentino conta o que fez com ele (Revista Senhor, nº 270)… Tenório usava barba na ocasião. Ele foi confundido como comunista e colocado dentro de um carro da polícia ou do governo. No quartel, começou uma sessão de torturas até constatarem que ele não tinha nada a ver com política. Aí fizeram contato com o governo brasileiro, que disse que ele não poderia voltar. Já na Argentina, também não poderia ficar. Decidiram matá-lo.

Instagram

Celso Brando continua trabalhando como fotógrafo. Dedica-se à arquitetura, especialmente. Em sua conta no Instagram, posta imagens de trabalhos recentes. Amante da boa música, conserva os LPs da adolescência, e mostra-se capaz de se surpreender ao ver seu nome na ficha técnica de algum disco. Celso Brando é um cara desprendido.

 

Créditos adicionais

Foto de capa: Bernardo Costa / portal Coisas da Música 

Vídeo “Celso Brando – Gravações” – Músicas: “Going home” (A. Dvorak), do LP “Going home”, de LA Four, conjunto formado por Laurindo Almeida (violão), Ray Brown (baixo), Shelly Manne (bateria) e Bud Shank (sax alto e flauta), gravadora East Wind, 1977; “Vagamente” (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli), do LP “Vagamente”, de Wanda Sá, gravadora RGE, 1964; e “Clouds” (Maurício Einhorn e Durval Ferreira), do LP “Embalo”, de Tenório Jr., gravadora RGE, 1964. 

Vídeo “Celso Brando – Fotografias” – Música: Lígia (Tom Jobim), do CD “Love dance: the ballad album”, de Ithamara Koorax, gravadora JVC, 2003.

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6 Resultados

  1. gerusa contti disse:

    Que maravilha!! Não me lembrava mais dele (desculpe ser tão brasileira assim) mas me emocionei com a história e amei ver as fotos!

  2. Jacqueline disse:

    Fantástico, Celso Brando! Sua história com a música é bem antiga. Grandes parceiros! Registro sensacional! Amei.

  3. Geraldo Picanço disse:

    Para a faculdade de jornalismo, na cadeira de Fotografia, fizemos uma reportagem com o Celso sobre sua arte em fazer fotografias aéreas. Adora um helicóptero.
    No “embalo” pegamos também o lado dele de fotógrafo em shows musicais. Mistura Fina, principalmente. Reuniões em casas de amigos. Um acervo.

    • Que legal, Geraldo! Celso tem mesmo fotos ótimas. Registros históricos. Ele me mostrou várias e estou para voltar lá e ver outras. E para ouvir mais discos naquele equipamento fantástico que ele tem. Grande abraço. Obrigado por comentar! Bernardo

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