A quintessência do samba-jazz

O baterista Téo Lima chegou ao Rio em 1963. Veio do bairro Farol, em Maceió, a tempo de assistir à temporada de Sérgio Mendes & Bossa Rio no Bottle’s Bar, no Beco das Garrafas. O que viu ali o marcou. De tal forma que, mais de 50 anos depois, ele reedita as jam sessions que ficaram na sua memória musical e na história da música brasileira. Onde? No mesmo Bottle’s Bar, à frente do conjunto que batizou de Téo Lima & Bossa Rio. Mais do que incorporar o nome do sexteto de Sérgio Mendes, os arranjos originais do LP “Você ainda não ouviu nada!” (1964) fazem parte do repertório de todos os domingos.

– As pessoas têm ficado impressionadas: ‘mas isso aconteceu?’. Digo que sim, que estamos copiando exatamente os mesmos arranjos. Vejo que até mesmo músicos desconheciam. Isso me entristece um pouco – diz Téo Lima em entrevista ao portal Coisas da Música, no Little Club.

Como há 50 anos atrás, temos uma seleção de músicos no palco a cada semana. Formam o sexteto, além de Téo Lima, Marcelo Martins (sax tenor), Diogo Gomes (trompete), Marco Brito (teclados), Humberto Mirabelli (guitarra) e Pedro Moraez (contrabaixo) que, na noite da gravação do vídeo acima, foi substituído por Rodrigo Villas.

Os músicos aparecem para dar canja, como os bateristas Renato Massa e Pascoal Meirelles, o flautista Red Sullivan, o pianistas Alfredo Cardim e Leandro Freixo e Paulinho Trompete. Outros cobrem eventuais conflitos de datas. É o caso dos trompetistas Jessé Sadoc e José de Arimatea, e do saxofonista Bruno Patrício. Certa noite, o baterista Steve Gadd, que acompanha Chick Corea, passou por lá.

– Ele me chamou de “meu mestre” – espanta-se Téo Lima.

Coisas que acontecem numa jam session feita por músicos de alto nível. Como no fim dos anos 1950 e início dos 1960, quando jazzistas americanos foram ao Beco das Garrafas conhecer a bossa nova.

O baterista Téo Lima no Beco das Garrafas Foto: Bernardo Costa/portal Coisas da Música

Farda militar

O Bottle’s Bar estava lotado. Téo Lima havia acabado de chegar ao Rio com uma pergunta: “Onde estão os grandes da bossa nova?”. Foi parar na boate do Beco das Garrafas, na Rua Duvivier, em Copacabana. Ali estavam os músicos que hoje homenageia: Sérgio Mendes (piano), Tião Neto (baixo), Edison Machado (bateria), Hector Costita (sax tenor) e Raul de Souza e Edson Maciel (trombones). Téo Lima tinha 16 anos:

– Eles faziam o que eu ouvia nas big bands americanas, ainda em Maceió, mas com toda a beleza da música brasileira. Para mim, tinha mais qualidade. Foram músicos que fizeram a nossa arte florir para o mundo. Hoje, nós procuramos manter aquela atmosfera, a mesma essência.

Apesar de adolescente, Téo Lima entrava nas boates graças à farda militar da Escola de Sargentos da Marinha, no Centro de Instrução Almirante Wandenkolk, na Ilha do Governador. Fizera a prova em Maceió como pretexto para ir ao Rio assistir aos artistas da noite carioca.

Prêmio

Téo Lima foi impulsionado por uma frase que ouviu na cidade natal, durante a cerimônia em que recebeu o prêmio, aos 16 anos, como o melhor baterista de Maceió. Foi Sidney Moraes, do Conjunto Farroupilha, quem perguntou: “Menino, o que é que você está fazendo aqui?”.

Nos dancings, nas gafieiras e boates, o baterista viu Sivuca, Breno Sauer Quinteto, Wilson das Neves, Dominguinhos. No Beco das Garrafas, Sérgio Mendes, Tom Jobim, Johnny Alf, Elis Regina. Tempos depois, tocou e gravou com eles.

Para Téo Lima, estar de volta ao Bottle’s Bar com um seleto grupo de músicos da noite de hoje, para tocar os arranjos originais dos discos de samba-jazz dos anos 1960, traz uma lembrança feliz de sua própria história.

 

Crédito adicional

Foto da capa: Bernardo Costa/portal Coisas da Música

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3 Resultados

  1. Um grande músico e pessoa da melhor qualidade .Salve Téo Lima, guerreiro de plantão a tudo.
    Sucesso meu irmão.

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