O que é que Dom Salvador tem

Dom Salvador é aficionado pelo jazz. Em 1973, foi para os EUA estudar a arte de seus “heróis”. Mas há algo que o diferencia deles. Dom Salvador é brasileiro, e traz o sotaque do samba em seu piano jazzístico, a tal bossa que os americanos ainda penam para aprender. Quem assistiu ao show do artista no festival Sesc Jazz, em São Paulo, pôde compreender melhor. Estava lá o piano sincopado e alegre, permeado pela fluência e liberdade de expressão do jazz. Coisas da Música fez o registro, no Sesc Pompeia, na noite de 26 de agosto.

Dom salvador, que fez 80 anos no dia 12, é um dos criadores dessa fusão, como o contrabaixista Sergio Barrozo. Com o baterista Edison Machado, os dois formaram o Rio 65 Trio, um dos grupos que definiram a estética do samba-jazz no início dos anos 1960, na esteira da bossa nova. Dom Salvador e Sergio Barrozo se reencontraram no show, no sexteto formado com Mauricio Zottarelli (bateria), Rodrigo Ursaia (saxofone), Daniel D’Alcântara (trompete) e Jorginho Neto (trombone).

O repertório foi dedicado às composições de Dom Salvador. Dos tempos pioneiros, o tema “Meu fraco é café forte”, gravado no LP de estreia do Rio 65 Trio. No show, Salvador e Barrozo formaram trio com o baterista Mauricio Zottarelli.

– Foi um dos momentos mais incríveis da minha vida – postou o baterista em seu perfil no Instagram dias após o show.

No camarim do Sesc Pompeia, Dom Salvador relembrou aqueles tempos.

– A música estava super forte, todo mundo tocando. Não só a bossa nova, mas também o jazz, a música americana. Isso tudo foi se desenvolvendo até chegarmos à medida certa para unir os dois elementos, no ponto do samba-jazz – disse Dom Salvador em entrevista ao portal Coisas da Música.

– Nessa época, você balançava a árvore e caíam vários trios – acrescentou Sergio Barrozo.

Para Edison Machado

Sergio Barrozo e Dom Salvador não tocavam juntos no Brasil há 10 anos, quando também fizeram uma série de shows no Sesc SP. A última apresentação havia sido em 2015, no Carnegie Hall, em Nova York, na comemoração de 50 anos do Rio 65 Trio.

Nesta temporada, passaram 10 dias juntos para quatro shows do festival Sesc Jazz, no Sesc Birigui, Sesc Piracicaba e Sesc Pompeia. Mataram saudades, deram risadas, e lembraram Edison Machado, falecido em 1990. Para Dom Salvador, o baterista criador do samba-jazz. Foi assim que o pianista se referiu ao colega ao apresentar, no show, a música que fizera para ele: “A chegada”.

– Foi numa época em que o Edison Machado estava voltando para Nova York depois de ter passado uns tempos na Dinamarca. Ele iria gravar um disco e me pediu uma música – lembrou Dom Salvador.

Homenagem também à cantora Elis Regina, no tema “Para Elis”.

– Eu gravei no primeiro disco de samba dela, e sempre pensei em fazer uma música para a Elis. Anos depois, fiz essa balada – disse Dom Salvador à plateia.

Sexteto

As músicas do show foram registradas no CD “Dom Salvador Sextet – The art of samba jazz” (2010), gravado em Nova York. Do álbum, fizeram parte Rodrigo Ursaia e Mauricio Zottarelli. No Sesc Pompeia, com Sergio Barrozo, Daniel D’Alcântara e Jorginho Neto, o conjunto alternou diversas formações, conforme pediam os arranjos de Dom Salvador. O tema de abertura foi “Gafieira”, com todos juntos. O título é uma das senhas para compreender a formação do estilo. Nos antigos bailes para dançar, havia instrumentistas interessados em improvisação musical. Mas o que se tocava era o samba. Não se pode dançar o jazz.

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